À primeira vista, o ato de lixar um pedaço de madeira bruta pode parecer apenas uma etapa cansativa da marcenaria. Há a poeira, o esforço e a vontade de ver a peça pronta. Mas, no silêncio do meu ateliê, aqui em Santa Cruz do Sul, descobri que lixar é, na verdade, um portal para o agora.

Muitas vezes, começo o trabalho sentindo a fibra irregular da madeira sob minhas mãos. Mas é quando ligo a lixadeira elétrica que o exercício de presença se intensifica. Pode parecer contraditório, mas aquele som contínuo e a vibração da máquina nas minhas mãos funcionam como um mantra.

Apesar do barulho externo, eu mergulho no silêncio interno.

Nesse estado de “flow”, eu me desconecto das preocupações e me conecto apenas com o movimento e a transformação da matéria. É ali que percebo:

  • A Paciência com a Matéria: Não se alcança o brilho pulando etapas. Cada lixa tem seu tempo, cada rotação da máquina tem seu propósito.
  • O Barulho e o Silêncio: A lixadeira me ensina que o mundo pode estar barulhento ao redor, mas o meu centro pode permanecer em paz. É uma metáfora perfeita para os dias atuais.
  • O Descarte do que não serve: Lixar é remover o que é áspero e o que esconde a verdadeira beleza. O que estamos “lixando” em nossas vidas hoje para que a nossa luz possa aparecer?

Cada grão de poeira que levanta é uma parte do “antigo” indo embora. E o que sobra? Sobra a verdade da madeira. Sobra a paz de ter dedicado tempo a algo real e feito com as próprias mãos.

Convido você, hoje, a olhar para as suas tarefas — mesmo as mais barulhentas — como oportunidades de presença. Seja no ateliê ou na vida, que possamos ser o portador e o portal dessa transformação.

Nada é descartável quando existe olhar de amor.


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